Contar Para Viver

Esta pagina tem como objetivo reunir pecas que eu escrevi. Elas são basicamente fotos e textos de momentos da minha vida. A maioria dos textos foram escritos em momentos de grande angustia e desesperança, pois nos demais momentos eu dificilmente pararia para escrever. Aproveite.

Saturday

Síndromes

Minha barba esta por fazer
Minha cabeça em outro planeta
Amanha e outro dia de trabalho
E eu aqui remexendo historias na gaveta

Sinto igual aquele russo
Do Crime e Castigo
As idéias giram em torno
Mas nenhuma é comigo

Ando lunático, errante
Ate mesmo inconstante
Tem hora que quero correr, lutar, por algo brigar
Outras ficar aqui nesse lugar

Ser grande, pequeno
Como se tivesse a opção
Jogar tudo que tenho
Num grande bolão

Jogo de azar, jogo de morte
Jogo da vida, jogo da sorte
Pause, Game Over, Resume Play
Reboot, do zero começar outra vez

Agora aprendi, nessa eu não caio
Neste joguinho esta tudo traçado

Me contentar com o que eu tenho
Mas parece tão pouco
Coincidência ou desdenho
Quero sempre o que não tenho

Tenho medo de agir
Tudo que eu faço ta errado
Deveria fazer algo
Também é errado ficar parado

Pra um lado não posso ir
Nem pra outra direção
Vou fechar os olhos
Ir pra quarta dimensão

Vou voar bem alto
E cagar nas cabeças
Das pessoas apressadas
Dessa cidade sem beleza

Vou me aposentar
Eu vou dar um basta
Aqui do alto
A la vista, Hasta!

Tuesday

Nas Nuvens

Linda menina,
Não consigo tirar os olhos de você

Cada vez que me passas
Prendo a respiração
Sinto pular uma batida
Do meu coração

Seu olhar me atravessa
Sua boca me fascina
Por traz dessa pose
Seu jeito de menina

Não posso te prometer
Nem a terra nem o mar
Não quero abrir os olhos
Nem parar de sonhar

Quero te ver de novo
Fazer tudo errado
Vê se não esquece
Desse bebê exagerado!

Monday

Marinheiro

Doutor, me vê um remédio pra eu melhorar
A dor ta muito brava ta difícil agüentar
Vê se capricha nessa receita
Dessa vez vai ter que funcionar

Uma dose da minha menina de manhã ao acordar
Mais duas de noite, antes de me acostar
Ah, põe logo ai pra não esquecer
Um gardenal pra eu não enlouquecer

Vê se convence minha mãe
Que meu caso é importante
Ou ela me manda dormir
Com chazinho e adoçante

Quero viver dopado de amor na veia
Quero ser a paixão da minha sereia
Vou pular no mar pra ver se eu tiro essa doença
Já não sei se é capricho ou se é sobrevivência

Algo que não posso ver nem mostrar pra ninguém
Mas que me deixa aos prantos como um neném

Como aquele maluco da Grécia antiga
Que se amarrou no mastro para ouvir as sereias
Ficou louco pinel, endoidou de vez
E eu aqui fazendo tudo igual ele fez

Ouço o som da sereia e quero tudo largar
Ouço a mais bela voz me chamando ao mar
Não penso em nada, só em me jogar
Para nas profundezas do mar a felicidade encontrar

Mas meus fieis marinheiros seguem avante
Com cera nos ouvidos, o rumo constante
Mas o dia que escolhi estava quente a vera
Tão quente que derreteu a cera

De alguns marinheiros azarados sortudos
Que não pensaram duas vezes e pularam pra seus túmulos

Como será que se sentiram aqueles matutos?
A paixão de uma vida em alguns minutos
Os demais olham horrorizados com uma pitada de inveja
Os mais curiosos se entregam a sorte perversa

E por mais que eu grite, esperneie e tente me soltar
Logo percebo que de nada vai adiantar
Os que estão na sombra não podem me escutar
Os que me ouviriam já pularam no mar

Me sinto sozinho
Tormentado pela emoção
Enquanto pela popa vou deixando
Minha grande paixão

Saturday

Preso

13 de Julho de 2006

Prendi o detrás de grades
Para de lá nunca mais sair
Antes de ir, por um instante o olhei
E de sua face nunca mais esquecerei

Tinha uns olhinhos caídos
Não se via bem qual era a cor
Entre uma barba rala e mal feita
Cabelos morenos indomados

Uma pinta pequena e escura se destacava
Sob seu olho direito
E seu grande nariz não era tão bonito
Quanto era imponente

A gravidade puxava os cantos dos seus lábios para baixo
Mas o que se destacava no seu rosto eram seus olhos afundados
O contorno deles caia acentuadamente nos cantos
Dando a impressão que estavam sempre tristes

A sobrancelha escura e espessa
Colaborava para sombrear ainda mais
Seus olhos recuados
Que pareciam procurar algo no horizonte

Lentamente eles se moveram varrendo o ambiente ate pararem inesperadamente olhando diretamente para mim. Foi só ai que pude vê-los. Eram verde escuros marronzados e ardiam com tanta força que quis desviar o olhar. Não consegui. Eles me mantinham imóvel. Estremeci por dentro e tive a certeza de que estava errado ao tranca-lo la. Ele me deteve por mais alguns instantes, me testando, mas num gesto de misericórdia, finalmente desviou seu olhar. Ele sabia que eu fazia aquilo por que o tinha que fazer.

Sunday

Profissionais

27 de Junho de 2006

E por isso que eu gosto das putas
Elas dizem o que eu quero ouvir
Desbocadas e desinibidas
Elas são umas verdadeiras vendidas

Já conversei com gente de todas as classes
Falei com mulheres de todas idades
Em qualquer lugar que eu procure um abrigo
Só mesmo as putas se parecem comigo

Não tão nem ai, dizem logo a verdade
O que elas vendem e sua liberdade
De ir e vir sem serem rotuladas
De serem o motivo de tantas piadas

Sou como elas, vendi minha honra
Meu lugar na terra por uma promessa
Promessa de um dia um barbudo chegar
E de mandar todo mundo praquele lugar

Com a força de um touro, vivo como um aleijado
Aos olhares dos outros, uma vida invejável
E quando acho que ninguém me entende mais
Me lembro das meninas dos duzentos reais